Por que os franceses rejeitaram direita radical mais uma vez

Os franceses rejeitaram mais uma vez a chegada da direita radical ao poder

Por Redação em 08/07/2024 às 05:23:40
Partidários da esquerda comemoram após o anúncio das primeiras pesquisas de boca de urna

Partidários da esquerda comemoram após o anúncio das primeiras pesquisas de boca de urna

Apesar dos resultados expressivos das forças direitistas na votação para o Parlamento europeu e no próprio primeiro turno dessa eleição para o legislativo nacional, na hora da definição a população francesa recuou — algo que j√° havia acontecido em eleições presidenciais no país.

A derrota surpreendente deixou o partido Reunião Nacional, de Marine Le Pen, como a terceira força mais votada na Assembleia Nacional.

As previsões de uma semana atr√°s, de alcançar 300 cadeiras no parlamento diminuíram para algo na faixa de 150. E isso aconteceu porque os franceses apareceram em grande número nas seções de votação — o maior comparecimento em mais de 40 anos.

Jordan Bardella viu frustrado plano de se tornar o novo premiê francês com a derrota da direita radical

Jordan Bardella, protegido de Marine Le Pen e que era cotado para ser o novo primeiro-ministro franc√™s em caso de uma vitória do RN, declarou que a aliança "não natural" e "desonrosa" entre esquerdistas e a coligação de Macron impediu a vitória de seu partido.

Bardella se refere à aliança entre partidos de esquerda que deixaram suas diferenças para formar uma coligação anti-RN.

Os v√°rios blocos políticos de tend√™ncias diversas de esquerda, superou a distância que os separa do bloco do presidente Emmanuel Macron para chegar ao surpreendente resultado no segundo turno das eleições legislativas.

Políticos da direita radical observam que nada, a não ser a oposição ao RN, une os políticos dessa aliança, que vai de Edouard Philippe, na centro-direita, a Philippe Poutou, da esquerda trotskista. E que essa falta de entendimento é um mau press√°gio para o futuro.

De qualquer forma, as urnas mostraram que a maioria dos franceses não quis a direita radical — seja porque se opõem às suas ideias, seja porque temem a agitação que inevitavelmente acompanharia a sua chegada ao poder.

Mas se Jordan Bardella não ser√° o próximo primeiro-ministro do país, quem ser√°?

Essa é a grande incógnita. E, contrariamente à convenção que se seguiu às eleições parlamentares francesas anteriores, poder√° demorar semanas até termos uma resposta.

Porque algo aconteceu nessas semanas tensas, algo que mudou a própria natureza do sistema político franc√™s.

Partid√°rios de diferentes setores da esquerda deixaram diferenças de lado para formar a coalização

Como disse o proeminente analista político Alain Duhamel — veterano em todas as eleições desde Charles de Gaulle: "Hoje j√° não existe nenhum partido dominante. Desde que Macron chegou ao poder, h√° sete anos, temos estado num período de desconstrução das nossas forças políticas".

"Talvez agora estejamos iniciando um período de reconstrução."

O que ele quer dizer é que existe agora uma multiplicidade de forças políticas: tr√™s grandes blocos (esquerda radical, direita radical e centro), mais o centro-direita. E dentro deles existem tend√™ncias e partidos concorrentes.

Sem nenhum partido capaz de obter a maioria na Assembleia Nacional, é agora inevit√°vel um longo período de negociações que possa formar uma nova coalizão que v√° do centro-direita até a esquerda.

Nada indica como isso acontecer√°. Os diferentes componentes politicos dessa possível aliança expressam uma aversão mútua até o momento.

Mas é possível apostar que Macron ir√° apelar para um período de conciliação após as tensões das últimas semanas.

Convenientemente, este período vai durar até a Olimpíada de Paris e as férias de verão, permitindo que os franceses recuperem o ânimo.

Nesse meio-tempo, Macron designar√° alguém para liderar as negociações e juntar as diferentes partes. Ser√° alguém da esquerda? Ser√° alguém do centro? Ser√° um político de fora desse bloco? Não sabemos.

O que parece certo é que a França est√° prestes a entrar num sistema mais "parlamentarista".

Macron e o futuro primeiro-ministro terão menos poder nessa nova fase.

Mesmo que o presidente consiga colocar um centrista no cargo de premi√™ (o que não é nada f√°cil, dada a força demonstrada pela esquerda), essa pessoa exercer√° o poder por direito próprio e com base no apoio parlamentar.

Macron — sem perspectivas de concorrer novamente em 2027, quando acaba seu mandato — ser√° uma figura menor.

Então o presidente perdeu a aposta? Estar√° ele arrependido da sua pressa em antecipar as eleições? Ele est√° pronto para dar um passo atr√°s?

Podemos ter a certeza de que não é assim que Macron v√™ as coisas. Ele dir√° que sua decisão foi tomada porque a situação era insustent√°vel.

Possivelmente, ele dir√° também que deixou as coisas mais claras na política francesa ao dar a chance para o RN obter uma parcela maior das cadeiras na Assembleia para refletir o apoio do partido no país.

E pode ainda sustentar que sua arriscada aposta de que os franceses nunca colocariam a direita radical no poder estava correta.

O poder de Macron pode estar em declínio. Mas, por enquanto, ele segue no Pal√°cio do Eliseu, consultando a sua equipe, estimulando os políticos, ainda dominando o relógio político.

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